
A pesquisa contribui cientificamente para o aprimoramento e a reflexão sobre as metodologias participativas do Design.
Em primeiro lugar, a cocriação com um grupo de cultura tradicional em situação de vulnerabilidade social e econômica constitui uma instância oportuna para se refletir sobre as relações de poder e as hierarquias inerentes às dinâmicas sociais. O compartilhamento de processos criativos entre os integrantes do Boi da Floresta e a pesquisadora (e seus orientandos) propicia a construção de espaços divergentes, marcados por diferenças de formação, raça, classe e gênero. Esse contexto favorece a emergência de “outros” saberes, distintos dos conhecimentos produzidos exclusivamente no meio acadêmico. Tal perspectiva alinha-se à justiça epistemológica, valorizando conhecimentos que não se enquadram no paradigma moderno-ocidental-capitalista.
Em segundo lugar, a proposta de construir narrativas sobre o grupo, com base nas memórias dos próprios integrantes da comunidade, fortalece seu processo de autonomia. Para além da produção cultural da manifestação do Bumba meu boi, existem processos de confecção de instrumentos, indumentárias, bordados e outros fazeres tradicionais que representam fontes de renda para os participantes. Ao fomentar narrativas situadas – fundamentais no âmbito do Design Especulativo e Participativo para promover engajamento, autoestima e participação democrática –, a pesquisa estimula um olhar atento para as potencialidades dos saberes e fazeres locais como meios de diálogo com a sociedade. A sistematização dessas narrativas poderá, futuramente, servir como base para processos de storytelling em ações coletivas de geração de trabalho e renda.
Em terceiro lugar, dar visibilidade às narrativas de um grupo localizado em um quilombo urbano, como o da Liberdade, significa reconhecer a importância dessas histórias em nossa sociedade, constituindo também uma forma de salvaguarda patrimonial. Conforme temos argumentado, trata-se de uma maneira de “pentear o Design a contrapelo”, fazendo emergir narrativas invisibilizadas e dialogando com debates contemporâneos no campo do Design, como a decolonialidade, os “outros” designs, o Design Ontológico, entre outras abordagens. Somam-se a isso as práticas ativistas presentes na pesquisa, materializadas tanto pela disponibilização de um acervo até então oculto quanto pela incorporação de novas imagens a serem produzidas.
Em quarto e último lugar, a pesquisa fortalece o tripé pesquisa-ensino-extensão, ao proporcionar a participação de discentes em ações na comunidade do Boi da Floresta, localizada em um bairro adjacente à UFMA. A coleta de narrativas, o tratamento de imagens e a produção de novas imagens – desenvolvidas nas disciplinas de Projeto Gráfico I e Tipografia ao longo da pesquisa – estão em diálogo com o ODS 4, assegurando educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promovendo oportunidades de aprendizagem para todos e todas, tanto da comunidade acadêmica quanto da comunidade criativa do Boi da Floresta.