Tese
O cenário interconectado da atualidade, que expõe contextos complexos, exige do design o entendimento multifacetado dessa realidade. Atuar como produtores de sentido, levantando questões em espaços de diálogos torna-se necessário aos designers. Entendemos ser necessária uma aproximação, um diálogo aberto com os atores sociais na busca de correspondências e relações com suas diversas formas de ver e estar no mundo. Esta tese investiga como o design, sob uma abordagem sistêmica, pode contribuir para a construção de diálogos entre políticas públicas e mulheres em situação de vulnerabilidade social, a partir da experiência do Programa Mulheres Mil, no município de São João dos Patos – MA. Ancorado em uma perspectiva pluriversal e crítica, o estudo parte da compreensão de que políticas públicas muitas vezes são elaboradas a partir de estruturas centralizadas que desconsideram os saberes e desejos das populações que pretendem atender. O objetivo geral é analisar as relações entre as mulheres e o Programa Mulheres Mil, a partir da ótica sistêmica do design. A metodologia baseia-se na pesquisa-ação com abordagem participativa, envolvendo entrevistas, observação direta, análise documental e a triangulação de dados, organizados em três níveis: pesquisadores, participantes do Programa Mulheres Mil e especialistas convidados. Os dados foram analisados com base na análise de conteúdo e nos referenciais teóricos do design sistêmico, design participativo, imaginação de futuros e políticas públicas. Os resultados revelam a existência de ruídos significativos entre as diretrizes do programa e as reais demandas das mulheres envolvidas, indicando a urgência de estratégias mais dialógicas e adaptadas às realidades locais. A pesquisa evidencia que práticas de design participativo fortalecem o protagonismo feminino e ampliam a autonomia das participantes, ao mesmo tempo em que oferecem novas possibilidades de atuação para políticas públicas sensíveis às múltiplas cosmologias. O estudo propõe que o design, compreendido como prática relacional e mediadora, pode transcender sua função tradicional e atuar como ferramenta estratégica na formulação e avaliação de políticas sociais mais inclusivas. A partir da escuta e da problematização, o design atua como um instrumento para tecer futuros possíveis, onde diferentes mundos possam coexistir. O conceito de pluriverso emerge como pilar teórico que sustenta a proposta de pensar políticas públicas não como estruturas impositivas, mas como espaços de negociação cultural, construídos por meio da colaboração entre Estado e sociedade civil. Ao valorizar os saberes locais, as práticas tradicionais e os modos de vida das mulheres patoenses, a tese contribui para um redesenho epistemológico do campo do design, apontando para um fazer comprometido com a justiça social, a equidade de gênero e a valorização das identidades territoriais. Conclui-se que o design sistêmico participativo não apenas revela contradições e lacunas nas políticas públicas vigentes, como também projeta caminhos para uma atuação política mais sensível, situada e transformadora.
Autores: Lima, Márcio Soares
Ano de publicação: 2025
Local de publicação: Repositório Institucional da UFSC